segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Batas brancas de negro


A luta dos enfermeiros está na ordem do dia e parece-me fazer todo o sentido.
Da mesma forma que não compreendo o que faz alguém querer ser bombeiro voluntário, não compreendo o que faz alguém querer ser enfermeiro. É preciso, de facto, haver algum tipo de chamamento, vocação, amor, paixão... algo que extravasa a lógica porque ninguém consegue vender de outra forma a ideia de que alguém irá trabalhar noites, tardes e dias, de forma aleatória, a tratar de gente mais ou menos perto da morte e do desespero sem ter direito a (um grande) reconhecimento social, profissional ou remuneratório.
No que me toca, faço por não chatear muito os enfermeiros com que me cruzo porque sei que, mais do que os médicos, é deles que o meu bem-estar depende! A minha experiência mais recente, com a enfermeira Rute que fez o meu parto (sozinha) dois dias antes da greve dos especialistas começar, veio reforçar ainda mais esta ideia! Nem nos meus sonhos eu teria sido tão bem acompanhada!
Depois disso, a garota pequenina tem avaliado o peso no Centro de Saúde também pelas enfermeiras. Tenho um mundo de defeitos a apontar ao centro de saúde e nem um às enfermeiras com quem nos temos cruzado (bem... talvez uma, aquela duvida que eu consiga amamentar, no ritmo que a miúda exige, por muito mais tempo... mas como é uma conversa que temos desde o início, pode ser que ela com o tempo vá mudando de ideias). Por isto tudo, resolvi mudar de Pediatra! O que é que o cú tem a ver com as calças? Passo a explicar. Já estava habituada ao jeito algo brusco que a senhora doutora tinha comigo, mas como com as miúdas estava tudo a correr bem deixei-me ficar. A gota de água aconteceu quando resolveu dizer que as enfermeiras eram burras e não sabiam o que andavam a fazer e isto porque, estavam a registar todos os pesos da miúda (de quinze em quinze dias no início e de mês a mês agora) no espaço existente para o efeito no boletim de saúde!?! Nesse instante, e somando a outras coisas, resolvi que alguém trata dessa forma um colega de área profissional, não terá grande capacidade para lidar com gente: miúda ou graúda. Bem sei que, no tempo da outra senhora, os médicos olhavam os enfermeiros de lado porque o percurso académico era bem mais curtinho, mas p'lo amor da santa, isso já coisa que ficou na pré-história dos cuidados médicos... e sinceramente, não sei se são mais anos de escola que fazem melhores enfermeiros, isto é, melhores pessoas para estar na frente de combate e gerir as emoções de quem está, em maior ou menor grau, frágil e sem saber o que lhe espera.
Enfermeiros desta vida: deste lado estamos convosco!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Tuyo


A miúda mais pequena cá de casa é viciada. A culpa será minha e do pai e da quantidade de episódios de Narcos que a obrigámos a "ver" ainda dentro da barriga. Seja como fôr, a sacaninha (mais querida, bechechuda e cheirosa deste mundo) só adormece ao som da música do genérico do Narcos e em modo "dancing cheek to cheek". Eu compreendo-a. Aconteceu-me várias vezes querer ferrar o galho ao som o Rodrigo Amarante e do seu "cha cha cha" hipnótico mas resisti pelo enredo (e mais até pelo Wagner Sousa e pelo Pedro Pascal... ainda não iniciei a terceira temporada para ter como desculpa o nosso Pêpê Rapazote).
Agora há uma questão que terei de resolver... A miúda não tarda vai para a creche (vivam os empregos precários a que nos temos de agarrar com unhas e dentes) e é normal dar às educadoras algumas dicas sobre as pequenas criaturas e já estou a imaginar a cara delas quando disser: "quando a birra for de sono é pôr a música do Narcos a tocar no telemóvel enquanto dança com ela, mas atenção, ela tem de a agarrar num dedo e a outra mão fica a apoiar o rabo/costas o suficientemente alto para poderem estar com as bochechas encostadas. É uma fácil de agradar esta bebé!"

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Baby wear: uma espécie de review











A minha mais velha nunca gostou de andar no carrinho e eu nunca gostei da ginástica que implica tirar rodas, pôr rodas, tirar ovo do automóvel, pôr ovo no automóvel e por isso desde que ela nasceu que quase sempre a transportei no sling. Os primeiros tempos não foram pacíficos, ela parecia não gostar de lá ser posta e eu, consequentemente ficava ansiosa. Com o passar do tempo todo o processo se tornou bem mais prático.

Quando a mais nova nasceu não tive grandes dúvidas que ia optar pela mesma modalidade e a verdade é que a garota parecia não se importar com o facto de andar metida dentro de um saco mas em casa a coisa mudava de figura. Sempre que precisava de usar as duas mãos para brincar com a Sardanisca-mor ou para arrumar a casa, a miúda desatava num berreiro que parecia que a estavam a capar e nada era solução: cama, berço, espreguiçadeira nada servia para dormir a não se o colo. A quantidade de coisas feitas era nenhuma e a quantidade de coisas por fazer era muita. No desespero de só fazer de vaca leiteira e de sofá pedi indicação a uma amiga que usava uma espécie de canguru em pano. Mal chegou a casa “vestio-o”, pus a garota lá dentro, que no mesmo instante começou a dormir e fui fazer a minha vida! Eu sei que parece uma coisa pequena mas emocionalmente foi uma espécie de comprimido de boa disposição. De modo que agora estou fã! Apesar de tudo acho que há vantagens e desvantagens nas duas modalidades:

Sling:
- mais prático para pôr mas menos confortável para mãe e cria;
- mais fácil de transportar;
- mais fácil de usar com bebés maiorzitos;
- mais "usável" por mais tempo (?);
- menos amigo de bebés pequenos;
- leva mais tempo a dominar sem ajuda;

Espécie de canguru feito em pano
- mais confortável para mãe e cria;
- mais prático para bebés mais pequenos;
- permite uma maior mobilidade da mãe;
- permite um maior controlo do conforto e estado do bebé;
- mais difícil de transportar;
- mais complexo de colocar (mas não é nada de outro mundo... duas tentativas e domina-se a besta)

Alguém tem alguma coisa a acrescentar?
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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Head, Shoulders, Knees and Toes


(eu com muito bom aspecto)

Numa destas noites tive uma epifania mas das palermas. Aquela canção dos miúdos – head, shoulders, knees and toes, knees and toes – foi na realidade escrita numa parceria entre médico de reumatologia e doente de AR* (ou algo parecido):

Médico – “Então diga-me lá como estão essas dores nas articulações? Quantas e quais articulações são?”
Doente – olhe são tantas que até pensei fazer uma música: Head, shoulders, knees and toes
(dá para ver o grau de taralhoquice, cansaço e algum desespero que p’raqui vai, certo?).

Pois, que parece que a minha amiga voltou em jeito e em força para me atazanar o juízo. O outro dia brindou-me com uma dor no ombro daquelas que fazem acordar às duas da manhã para já não voltar a dormir e não voltar a mexer o braço, o que, quando se tem um bebé com um mês e meio que mama de três em três horas é superespetacular! A par dessa há a do pulso direito, que já é uma velha amiga que nunca me abandonou, uma moínha no joelho direito e o pé esquerdo a parecer uma batata mas, como isto muda todos os dias quem sabe o que trará o dia de amanhã?! É uma animação! De manhã, ver-me a andar é todo um cenário dantesco, o que vale é que a coisa se compõe com o passar das horas. Usando a Daniela Mercury como mental coach, adoptei a máxima “Rio, rio rio, rio p’rá não chorar” a par com aquele pensamento tremendamente egocêntrico de que há que tenha coisas bem piores e se safe sem estrabuchar, por isso, não posso fazer muita fita. Mas apetece!

A parte boa é que dei conta que já expirou o prazo de vida da avestruz que habita em mim. Vai daí, depois de tirar a cabeça do buraco, resta-me tirar a areia dos olhos e marcar nova consulta para ver como estão os meus interiores. Entretanto é acreditar que isto está/vai passar.
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*Artrite reumatóide

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Alive and kicking


Tudo a andar sobre rodas por estes lados mas sobra pouco tempo e nenhuma energia para vir escrever (até agora e vou aproveitar para pôr as ideias em dia... mesmo que só com uma mão). Ainda assim, e como nota positiva, após a última contagem de cabeças, não perdi ninguém. Contudo, ainda não consegui que os dias corressem como o planeado... é que nem chego a conseguir cumprir o plano C... mas já percebi que as coisas correm tanto melhor quanto menor forem as expectativas!

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Para memória futura


Antes uma nota importante. Este post não deve ser lido por futuras mães de 1.ª viagem ou aspirantes a mães de 1.ª viagem.



Seria de pensar que no segundo filho já não houvesse espaço para muitas novidades mas a realidade, pelo menos a nossa, é outra. Dou por mim a dizer certa de 85 vezes por dia “não me lembro das coisas terem sido assim com a mais velha” o que me leva às seguintes hipóteses:
a) Aquilo que dizem sobre as gravidezes é mesmo verdade: todas são diferentes;
b) Aquilo que dizem sobre as gravidezes é mesmo verdade: esquecemos as partes más;
(a sabedoria popular nunca falha)

Posto isto, não vá eu daqui a uns anos achar que é boa ideia ir ao terceiro, fica aqui o registo para memória futura:
1. Há poucas coisas tão boas quanto o cheiro do nosso bebé.
2. Melhor, melhor... só mesmo aqueles sorrisos desdentados involuntários... derretem qualquer um!
3. Conhecemos finalmente a perfeição personificada: o nosso bebé a dormir tranquilamente!

Ah ah ah!! Apanhei-vos! Vá, xô daqui a vocês que ainda não pariram! É tudo muito bom e muito bonito e não se vão questionar nem por um segundo sobre o que foram fazer à vossa vida. Palavra. Agora vão ver, pela milionésima vez, se o bebé que têm dentro da barriga é do tamanho de uma semente de chia ou de uma melancia, depois passem pelo site da Zara Home e não se esqueçam de aproveitar os saldos da Verbaudet.

Este é o terceiro e último aviso. Já foram embora?!... Depois não digam que não vos avisei!

4. Parecemos um passador. Todos os furos do nosso corpo vertem durante um mês e há, pelas várias divisões da casa, vários vestígios disso mesmo: discos de amamentação, copas para os mamilos respirarem, vários tipos de pensos higiénicos e lenços de papel aos molhos porque qualquer coisinha nos dá para chorar.

5. A nossa cria parece um passador. Ele é cocós e xixis por todo o lado. Fraldas, trocador, paredes, nós, bodies... tudo é atingido pelo anticiclone de caca da vossa cria;

6. A quantidade de lixo produzido para conter o líquido que de nós sai é incrível. Produzir fluídos corporais em doses industriais, implica contê-los em doses industriais, vai daí o lixo produzido é comparável à de uma pequena suinicultura;

7. A cama do bebé tem picos. Apesar de conseguirem adormecer a fazer o pino ou pendurados por um braço, mal sentem a cama fofinha e fresquinha acordam como se fossem entrar ao serviço como polícias sinaleiros.

8. Se achávamos que matemática do 12.º ano tinha sido difícil estávamos bem enganadas... experimentem saber às quantas andam no que toca à mama em função (é suposto ir alternando entre mamas quando estamos a amamentar) e a horas de mamar... dêm-me trigonometria e equações do terceiro grau! Cá sei seu se na última vez dei a mama direita ou esquerda e se dei de mamar às duas da tarde ou às três!

9. “A chama imensa” está dentro de nós. E não estou só a falar de adeptas do glorioso crentes que ainda vamos ao penta, não! Estou a falar de todas quantas têm, como eu, um pingo de gente esfaimado que põe as nossas mamas a fazer horas extraordinárias! Entre mamilos e mamas, tudo está quente e dorido. (Para quem não tem a sorte de ser benfiquista a banda sonora será o “these girls are on fire”.)

10. Há acampamentos de festivais mais organizados que a nossa casa. Acontece um fenómeno extraordinário: a casa arruma-se a muito custo e 1,35 minutos depois já está virada do avesso. Ele é fraldas de pano em cima das cadeiras, a cadeirinha de embalar em cima da mesa, a taça de cereais, que íamos começar a começar quando a criança começou a berrar, em cima do braço do sofá, o conjunto de chá de brincar da mais venha no chão... (não tenho mais meia hora para continuar).

11. Somos o mapa do grande mundo dos cócós. “Dê maminha que é muito bom. Os intestinos funcionarão muito melhor”. Quão melhor? “Lava-jacto” melhor! E o rescaldo aterra onde? Em cima de nós! Há salpicos vindos da cena do crime (leia-se trocador) em todos os cantinhos mais recônditos a casa e de nós.

12. A máquina de lavar roupa está quase tão cansada quanto nós. Entre a roupa que a garota suja e aquelas que sujamos (voltamos há história dos fluidos corporais) é raro o dia em que não pomos trezentos quilos de roupa a lavar;

13. O parto não é o mais difícil disto tudo!! Não é não senhora. O mais difícil e conseguir viver, com tudo o que isso implica: cansaço e sono acumulado! Por muito bem que a cria mais nova e mais velha durmam, implica sempre acordar duas vezes para dar de mamar e outras tantas para dar água e afastar os sonhos maus.

Portanto, vamos lá repetir o mantra: não te voltarás a esquecer de tudo isto! Por muito bem que o bebé cheire (e cheira tão bem) e por mais ternurento que seja o sorriso desdentado!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Eu, a dar uma bélha


Não gosto nada daquele paleio de "no meu tempo é que era" mas, 9 anos de "casa aberta" já me dá o direito de ter essa visão. A verdade é que tenho saudades do tempo em que procurava na net e nos blogs da malta que ainda não fazia (ou gostava de fazer) da coisa profissão, sugestões, dicas, indicações de alguma coisa e, nos resultados da pesquisa, encontrava opiniões que eram fruto de experiências pessoais... Agora o que encontro são sugestões que surgem de "parcerias" o que torna tudo muito mais imprevisível.
A questão é que daqui por uma semanita a Sardanisca maior entra de férias e o Homem começa a trabalhar. Isto quer dizer que vou estar três semanas sozinha com as duas. Depois de ter entrado e saído da assistolia comecei a elaborar um plano com o pouco que conheço de Lisboa, sendo que, a versão kids friendly da capital é-me completamente desconhecida e, como estava a dizer, é tramado encontrar opiniões isentas... vai daí tenho de fazer-me à vidinha e desenrascar-me. Para já, e porque não somos menos que ninguém, vamos iniciar as nossas próprias parcerias (unilaterais) com o Oceanário, Zoo, Quinta Pedagógica dos Olivais, Cinema, Jardins da Gulbenkian, Jardins do Marquês de Pombal, Pavilhão do Conhecimento... . Se sobreviver à experiência de ocupar o tempo de uma garota de 4 anos enquanto tento manter saudável uma bebé com 1 mês, conto como foi.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Eu e a minha realidade alterantiva



Exatamente um mês depois de ter parido olhei ao espelho e exclamei: CREDO!! Se é verdade que estou a 3-4 kg do peso com que engravidei também é verdade que esses miseráveis se instalaram na minha barriga em modo de banha e vá, 1-1,5kg em mamas... basicamente estou uma vaca em todas as dimensões. E sim, "hashtag somos todas Carolinas", mas convenhamos que, a maioria de nós, preferia ser a versão possível das Patrocínios... eu pelo menos preferia... e se fosse sem grande esforço, então, supimpa! A verdade é que, se me portei bem durante da gravidez em que devo ter aumentado uns 10kg, e que 7-8kg foram à vida nas primeiras três semanas, também é verdade que a adaptação à nova vida tem sido exigente: a garota que mama de hora-a-hora (literalmente... mesmo durante a noite), a mais velha que precisa de atenção, a casa que precisa de manutenção e algum trabalho-trabalho que há pelo meio disto tudo, acabo por descontar o cansaço em porcarias! Não tem havido dia sem geladinho, bolachinhas, chocolatinho e o raio que o parta. Cheguei a ter acessos de ataque à despensa em modo zombie e só passados uns minutos é que me apercebi o que tinha feito. Ainda por cima encontro a melhor desculpa possível para a minha prevaricação "estou a dar de mamar por isso tenho de me alimentar".

Isto tudo para dizer que já tenho luz verde para começar a fazer exercício e quero ver se começo. Não sei muito bem como é que o vou encaixar na minha "rotina" (mentira... por aqui ainda não há rotinas... aliás, há o caos, há a tentativa de sair de casa às 10h e só o conseguir fazer lá para as 15h) mas vou ter de o conseguir fazer. Até aqui a minha intensão era fazer caminhadas mas as noites têm sido tão exigentes que acordo (às três da manhã) pronta para voltar a dormir. O descanso também ajudaria a voltar ao normal mas isso não se prevê para o imediato por isso teremos de ter paciência.

Vamos então a isto o que significa muita foto de ginásio, sapatilhas, comidinhas boas e o desejo de não vacilar... para não parecer que abusei da cerveja ou que estou novamente grávida de 6 meses.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Porto em duas horas









Quem segue o instagram desta casa (oh p'ra mim a falar como uma digital influencer... aparentemente "digital influencer" é a próxima cena a estar na moda por isso mais vale começar já a armar-me ao pingarelho) sabe que fomos ao Porto. Eu, o Homem e a mai'nova rumámos a norte para eu botar faladura num congresso e aproveitámos duas horas para dar um giro no centro. Já não me lembro da última vez que visitei o centro da Invicta e também não me lembrava do quão bonita é! Basicamente demos duas voltas ao quarteirão, mas valeu muito a pena.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Vamos jogar ao jogo "quão frita estou eu da cabeça!"



Ah a maternidade! Aquele período das nossas vidas em que tudo é felicidade, há corações a flutuar no ar e nunca nos parece ser de mais dizer o quanto amamos os nossos filhos desde o momento em que lhes pusemos os olhinhos em cima!... Ou então não. Eu cá não tenho nada contra mas, no meu caso, durante o primeiro mês sinto que estou num filme do Kusturica: é o caos, a alegria, o drama e a comédia tudo acompanhado de um banda sonora que parece ser tocada pela filarmónica da terra mas em esteróides!!

Neste momento estou toda comidinha da cabeça! Começou com a falta de vocabulário: "Homem, vais-me buscar... [silêncio] ... [silêncio]... aquela fruta que se come e tem casca e que eu gosto...". Depois passei a perder-me cada vez que o trajecto de carro era ligeiramente diferente do habitual, assim do género de ir a Loures para chegar ao Parque das Nações. Mais frequente é, dar de mamar à uma da manhã, adormecer depois de entregar a garota ao pai e acordar à uma e um quarto, com qualquer barulhito que ela faça e, já a sacar da mama, perguntar "está na hora de mamar, não é?". O cúmulo aconteceu aqui há uns dias, quando estava a ir do sofá para a cama, devidamente guiada para bater nas paredes, a transportar um bebé imaginário junto ao peito, a quem primeiro quis dar de mamar e depois quis entregar ao pai para lhe mudar a fralda. Fiquei danada porque o progenitor da criança não queria segurar nela (na criança imaginária). Depois lá lhe perguntei "ela não está aqui, pois não?". O sacana ficou a rir mas de nervoso... acho que achou que eu tinha passado para o lado de lá e sem bilhete de regresso.

Posto isto vamos a votações: de 0 a 10 quão frita da cabeça estou?

(Para tranquilidade de todos, a pequena cresce que nem uma valente!)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Rabos que inspiram pensamentos profundos

Photo by Marija Zaric on Unsplash


Adoro aquelas fotos de Instagram em que se quer mostrar o bikini body, toda a saúde que a genética e o PT nos deu, em particular a forma e rijeza do rabo mas, para a coisa não ser tão gratuita, e não parecer que se quer só mostrar o "pacote" (como se diz na minha terra) acrescenta-se uma frasezinha inspiradora que pode ser do Gandi, do Mandela, do Chagas Freitas ou (da dona) do próprio rabo que poderá ser algo do género "vai onde te sentes feliz. Deixa fluir essa energia boa que tens no coração"*.

* esta é uma citação da legenda de uma dessas fotos... voltei a procurar mas já não encontrei a fonte... espero que a/o autor(a) me perdoe.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Nós, vós, eles


Podia agora dissertar sobre como este - o nós e o outro/eles - é "o" paradigma da minha antropologia. Há algo que separa o "nós" do "outro" e normalmente resume-se ao facto de o "nós" ter razão e o "eles" não: "se 'eles' soubessem como as coisas funcionam não diziam/faziam o que dizem/fazem". Quem estuda esta dicotomia acaba por exacerbar a empatia porque é treinado a compreender a perspectiva do “nós” sobre o “eles” mas, essencialmente, encontra os argumentos que fazem do “eles” o “outro” (que não percebe nada disto).

Ora, sendo antropóloga, estou constantemente nesse exercício. Consciente e inconscientemente. Nas fianças sou a tipa com ar comprometido que não diz nada sobre a lentidão dos serviços, ou sobre a falta de capacidade técnica. Porque imagino que "eles" tenham de trabalhar num programa obsoleto, num computador ainda mais antigo, sem o pessoal necessário e com regras que "nós" não conhecemos. Normalmente as minhas reclamações são sobre comportamentos de pessoas e tento não imputar nessas pessoas o fardo do contexto em que trabalham.

Por tudo isto tenho uma sugestão que vai tornar o mundo um lugar melhor, diria mesmo, o paraíso!! Aqui vai: uma lista intitulada "o que vocês não sabem". Esta lista teria de estar presente na entrada das zonas perigosas por exemplo, repartições de serviços públicos (hospitais, finanças, hospitais, conservatórias, hospitais, tribunais, centros de saúde...) e cada utente teria a sua própria lista que adequaria à situação.

Exemplo (que poderia ser meramente) hipotético:
Num hospital (periférico a uma grande urbe) as críticas mais frequentes que “nós” fazemos a “eles” são: a demora no atendimento, a má cara de quem nos atende, o não fazerem caso do que para nós é importante, não levarem connosco o tempo que nós achamos necessário. Com a tal listinha bem visível, possivelmente, ficaríamos a saber que (pela voz deles):
- Temos que ver muitas pessoas a maioria dessas pessoas veio à urgência/serviço porque não quis marcar e esperar dias por uma consulta (confirmar se não é o caso, se for, não esquecer que a espera pode ser de horas mas não de dias);
- Trabalhamos muitas horas seguidas. 12h, 24h, 36h... e também ficamos fartos, cansados e irritados. Além do mais, porque trabalhamos quando os outros descansam e curtem, estamos sempre a perder a festa da escola do nosso miúdo ou um dia importante das nossas pessoas;
- É verdade que normalmente não corremos e não andamos muito apressados. Estamos a guardar energia para quando isso tenha mesmo de acontecer. Se nos virem em modo corrida é porque a coisa está complicada;
- Aprendemos que temos de filtrar aquilo que nos dizem para podermos dar atenção ao que realmente importa. Se marcarem uma consulta, a tal que pode levar a dias de espera, terão de certeza mais tempo para falarem de tudo o que vos atormenta;
- (acrescentar outros argumentos)

Por nosso lado nós poderíamos apresentar a nossa listinha. No meu caso diria qualquer coisa como:
- Estou cheia de medo;
- Não sei se estou preparada para o que têm para me dizer;
- A espera faz aumentar o meu medo;
- Não gosto de hospitais porque me irrita a falta de urgência dos médicos e enfermeiros quando eu estou aflita e me apavora a ideia de os ver em acção a sério;
- Tenho gente que depende de mim à minha espera e só quero ir para casa;

Estou mesmo em crer que esta troca de informação evitaria muitas irritações!

(Post escrito em parceria com a obstetra que me fez esperar 3h pela alta... custou esperar mas tenho a certeza que houve motivos válidos para isso)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Par completo



E cá estamos na versão a 4. Afinal a moça desistiu de esperar pelo Natal e às 40 semanas e 4 dias saiu do bem-bom... (a outra versão é que foi expulsa pela "maldadezinha" da médica, pelos 4km em passo rápido com "aquele" calorzinho da semana passada, e pelas quatro subidas ao quinto andar pelas escadas).

Confesso que estava borrada de medo do parto, tendo em conta que o último tinha sido, no mínimo, traumático, mas este foi impecável! Aquelas coisas que se dizem "ouve o teu corpo e faz o que ele te pede" nunca funcionaram muito bem para mim... ou sou eu que sou surda ou eu e o "corpo" falamos idiomas diferentes, mas neste caso, funcionou que foi uma belezura! Foram três ou quatro "faça força" e a coisa deu-se! Tinha cá fora a princesa mirin. Ainda perguntei se já estava e, tendo em conta, que não eram gémeos, efectivamente, estava. Bastou uma enfermeira para tratar da ocorrência e as outras duas só foram precisas para tratar da gaiata. Já agora, uma grande vénia às enfermeiras, em particular às enfermeiras do calibre da enfermeira Rute! You rule!!

A miúda é impecável mas reivindicativa. Faz lembrar a mana mais velha por estes dias e mama que se farta. Ou seja, já entrei no modo vaca leiteira com direito a ordenhador automático e tudo.

Está tudo ainda meio caótico no respeita a emoções - à semelhança deste post que não tem ponta por onde se lhe pegue - mas também muito claro que fazemos mais sentido a 4. Dois pares. Árvore e frutos e todas as suas combinações possíveis!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ponto da situação






Farei 40 semanas de gestação amanhã. Sinais da garota querer sair? Nenhum! Juro que achei que pelas 37 estaria cá fora tal foi a animação da minha vida nestes últimos tempos: corri muito atrás da mais velha; mudei de casa e fui eu, com o "partener", que fizemos as mudanças e as limpezas na casa antiga e na casa nova (com a ajuda da mãe e da sogra num dos dias); mantive-me no ginásio até aos 7 meses e meio; fiz a festinha da Sardanisca com tudo o que isso implica (compras, cozinhar, montar o estaminé e arrumar tudo a seguir); estive a trabalhar até às 39 semanas e dois dias num edifício que tem três andares (e um elevador do tempo da velha senhora e tão lento quanto a própria no qual nunca andei) o que implicou subir e descer muita escada por dia e também subidas e descidas variadas à Cova da Moura e à Quinta do Mocho que são zonas inclinadas para caramba, mais as sessões de defesas de 8 horas; as lides domésticas (cozinhar, limpar, tratar da roupa), ainda que partilhadas com o meu Homem continuaram a ser asseguradas por mim e ainda fui à praia e tomei banhos de mar com a Picatxu com direito a apanhar ondas, fazer castelos na areia, carregar sacos de praia, levar a miúda ao colo e o camandro. No meio disto tudo, tive direito a contrações mas nada de outro mundo. Quando cheguei a Coimbra, no início da semana, achei que me iam dizer na maternidade que já podia ficar que a coisa se ia dar a qualquer momento. Não! Ouvi um "uuuiiii! isto ainda está muito atrasado!! venha cá daqui a uns dias". Voltei para ouvir outro "uuuiii! está um bocadinho mais avançado mas ainda há aqui muito trabalho pela frente! se às 41 semanas ainda não tiver nascido vamos ter de induzir". Se as caminhadas e as brincadeiras com a garota continuaram a fazer parte dos meus dias, juntei à dose diária de actividade a subida e descida de escadas. Quantas? ora bem, 280 degraus a subir (não conto as descidas) de manhã e à tarde até à primeira visita à maternidade, a que passei a somar visitas diárias às escadas monumentais (125x2 degraus a subir) depois da segunda visita à maternidade. Resultado? Dói-me a barriga... das pernas. Perante isto, estou convencida que a mai nova nasce lá para o Natal. Dicas anyone?

quarta-feira, 21 de junho de 2017

11 dicas para arrasar no instagram


Tenho que avisar que o post deve ser lido no tom irónico e sarcástico com que foi escrito... Se eu soubesse como dominar as redes sociais não tinha cerca de três leitores! Vamos lá, que isto é fruto de muitos meses de recolha de dados.

1. Comprar um flamingo insuflável e espetá-lo no instagram à força toda: nos "live videos", nos "instastories" e nas fotos em modo boomerang e sem ser, garantindo que ttttooooooddddddaaaaaa a gente sabe que se adquiriu um flamingo insuflável. (Porquê?!... se estão a pensar responder a essa pergunta a popularidade nas redes sociais não deve ser a vossa cena... deixem de ler este post aqui);

2. Fazer um instastories com a indicação da hora, local e temperatura (de preferência num lugar em que se possa estar dentro de água com o flamingo). Desde do saudoso Anthímio de Azevedo que a meteorologia não é mesma coisa. Há que batalhar para lhe devolver a dignidade;

3. Fazer um unboxing de cenas. Nada como ver um indivíduo maneta a tentar abrir uma caixa. Faz o dia de qualquer pessoa muito mais interessante;

4. Selfies individuais ou colectivas com os acrescentos das orelhas e narizes dos animaizinhos, coroas da frozen, óculos e tudo o que se tem direito. Aceito sugestões de punch lines para esta, porque não me sai nada;

5. Qualquer coisa em boomerang... mas, em podendo, rodopiar uma saia ou um vestido. Só pela ilusão de estarmos a desafiar a gravidade por algumas fracções de segundo. Há um Einstein dentro de cada um de nós... salvo seja;

6. Festivais de Verão: filmar de modo a que o mundo veja o que nós vimos, isto é, um artista pelo ecrã de um telemóvel (e não ao vivo);

(Não descurar os clássicos:)

7. Pés / Pernas. Foi por aqui que tudo começou e ainda não passou de moda. Mostrar ao mundo que somos bípedes continua a ser inovador;

8. Comida. Se houve tema que cresceu foi este. Já não é só a comida do restaurante do não sei quantos do Bairro/Esquina/Avenida/Marina (riscar o que não interessa), agora é o se come antes e depois do treino, a nova tendência vegan/vegetariana/paleo, o gelado de três andares... You name it! Fundamental é que se perceba que nos alimentamos. Atenção aos brunchs... estão a perder a popularidade;

9. Ginásio (lá está... de mãos dadas com a comida) não pode falhar com o respectivo relato, se não não vale. Temos que saber a hora do início do treino, os segmentos trabalhados, o número de repetições e, fundamental, o número de calorias gasto. Caso contrário mas valia terem estado a enfardar bolos;

10. Outfit of the day: no provador da Zara, contra o portão do prédio, a atravessar a estrada, a fazer pose descarada ou como se não soubéssemos que nos estão a a fotografar... tudo vale. Dica: não tirar a etiqueta para dar para devolver à loja;

11. Cenas aleatórias colocadas em cima de uma secretária mas tudo muito bem arrumadinho. Esta tendência já viu dias mais prósperos... mas eu continuo a acreditar que vai voltar em força, afinal, de que outra forma podemos combinar um teclado de computador, com uns brincos, um livro, uma garrafa de sumo, um lápis e uma moldura?! Há coisas que não podem cair no esquecimento!;

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Para já, um bocadinho de silêncio


Tinha um post com piada (digo eu!) agendado para hoje mas não estava confortável em deixá-lo aqui no meio de tanta coisa sem graça a acontecer. Por agora ficamos assim, a desmoer a ideia de que acontece só aos outros porque temos tido a sorte de estar no lado certo das tragédias*. Aquele em que podemos dizer ao mundo, como se o assunto fosse sobre nós, que temos muita pena e o coração muito apertado, em que nos preocupamos em chafurdar na dor dos outros na procura de culpados (como se valesse de muito) e que apontamos soluções que no mínimo, vêm tarde de mais. Daqui por uns dias já vai fazer mais sentido (so)rir e nessa altura deixo o post  mesmo giro (no pressure) que estava preparado para hoje.

Como ajudar sem ter muito trabalho, sem atrapalhar e sem ter de garantir há espaço para tudo, aqui.

* Já agora, quão seguros nos sentimos se pensarmos que esta trapalhada toda aconteceu porque um raio, num dos dias mais quentes e secos do ano, atingiu uma árvore, que essa árvore pegou fogo às outras e que o vento levou esse fogo para o resto do espaço e chegou a aldeias que de tão anónimas nem deviam vir no mapa. Haverá maior conjugação de improbabilidades?

sexta-feira, 16 de junho de 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Das analogias improváveis e daqueles posts longos com'ó catano


O meu primeiro carro foi um Fiat Cinquecento branco de 1994 (acho eu). Não tinha auto-rádio (o carro tinha sido da minha mãe e ela tinha medo que lho roubassem se tivesse auto-rádio... era capaz de ter alguma razão) mas tinha um discman a pilhas com colunas em vez de headphones. Acompanhou-me em horas incontáveis de casa para a faculdade, da faculdade para o trabalho, idas a casa da minha mãe, treinos de pólo-aquático tardios, latadas e queimas das fitas, viagens de férias, inícios de namoricos, meios de namoricos e fins de namoricos, fez mudanças de quarto de vários colegas e fez de autocarro todos os dias. Podia dizer que nunca me deixou mal mas estaria a ser mentirosa. Na verdade era preciso conhecer bem a peça para lhe pôr as mãozinhas: não aguentava o pára-arranca de um dia de trânsito e ficava logo com o termóestato no vermelho e não andava para mais lado nenhum; tinha de ter sempre um saquinho de fusíveis no porta-luvas para os dias de chuva em que os desgraçados se fundiam à velocidade da luz; os garrafões de óleo e água ficavam na mala para quando a temperatura subisse sem avisar. Apesar do tanto que ajudou a minha vida, não lhe consigo perdoar aquele verão em que fui, com mais duas babes, fazer uma viagem pela costa de prata, que, no meu caso, se chamava "viagem de dor de corno" (tinha acabado de ficar sem o meu primeiro namorado a sério e queria esfregar na cara dele e da nova namorada que estava super feliz e independente) quando fiquei com o carro a deitar fumo em plena A1 a 30 km de casa e as férias foram substituídas por uma cabeça de motor (e não pude esfregar nada na cara de ninguém...).


Nesta analogia, que tarda em chegar, eu sou o Cinquecento e o blog sou eu durante os tempos de faculdade. Este espacinho faz hoje 9 anos (9 anos caramba!!) e como é lógico já passou por muito: um doutoramento, quatro ou cinco mudanças de casa, enganos amorosos que terminaram com um tiro certeiro num tipo às direitas, mudanças de cidades, mudanças de trabalho, desemprego, filha n.º1 e filha n.º2. Mudanças de personalidades que foram desde a tipa que fazia bugigangas (ver, com um compensan ao lado, os primeiros posts), à que achava que um dia ia ser fashionista, à que tinha tantas opiniões que achava que podia dispensar algumas ao mundo, à cinéfila intelectual, à melómana vintage, passando pela "Martha Stwart" (versão pobrezinha que não desvia fundos), e pela guia de viagens daqueles destinos que já todos conhecem, já para não falar da fit-momma-runners-wh-cenas entre outras mil coisas que prefiro não elencar (para evitar vergonhas alheias). O blog manteve-se aqui, firme e hirto, disponível para as necessidades, e eu fui o carro em sobreaquecimento que volta-e-meia ficava parado; fui o veículo que deixou o blog na mão quando ele mais precisava para crescer; fui o discman que ficou sem pilhas quando o que era mesmo preciso era um sonzinho ambiente (não sei bem o que é que isto quer dizer mas saiu e vai ficar).

Ao longo destes 9 anos, já houve promessas de que isto ia crescer, já houve contactos para parcerias (a mais memorável de todas que, tal como as outras, nunca viu a luz do sol, foi a de um aspirador que vinha mesmo a calhar mas por inépcia minha ficou pelo caminho), já houve pedidos de divulgação de coisas e todo um conjunto de cenas com as quais não soube lidar porque, afinal, quem anda de Cinquecento quer é estar na descontra porque já chega o stress associado a todos os imprevistos que podem acontecer...


Confesso que sinto muito a falta de vir aqui com mais tempo, escrever o que me apetece, ser a tipa que se arranjava para ficar bonitinha, a que ia ao cinema, a que ouvia música nova, a que tinha muitas opiniões... mas depois a vida mete-se no caminho e acho que ninguém precisa de saber que há uns dias saí de casa com dois ganchos da Minnie espetados no meio da testa porque estive a brincar aos penteados com a Sardanisca e depois esqueci-me de os tirar. Que tudo quanto é comida e pasta de dentes aterra na barriga onde está a mais nova e sempre que olho para baixo tenho uma nódoa daquelas à la "trailler park". Ou que, estive dois meses sem arranjar as unhas porque com as mudanças e as limpezas associadas às mudanças não há verniz que aguente dois minutos. Que tenho os calcanhares a fazer inveja às lixas das rebarbadoras. Que divido o meu tempo entre o trabalho (que é muito) e a manutenção da casa e das nossas vidas enquanto tenho de me deslocar com uma bola de basquete de alguns cinco quilos, com dores nas articulações e tomar ferro, iodo e magnésio para ver se o corpo não entra em decomposição. O mais estranho disto tudo é que não me estou a queixar, apesar poder parecer que sim, e até estou feliz com a situação! Acho que tenho tudo e quilos de sorte por conseguir ter tudo (quer dizer, mulher-a-dias uma vez por semana era uma coisa que me podia deixar ainda mais feliz), mas acho que para o resto do mundo esta é uma realidade um bocadinho deprimente e sempre muito do mesmo... Ainda assim, não desisto de manter este cantinho aqui para o que der e vier. Gostava muito de lhe fazer um "pimp my ride" e pô-lo a parecer como uma coisa a sério e cheia de glamour mas sei que isso não vai acontecer num futuro próximo. Seja como for, vamos continuar a fazer um esforço para nos mantermos por aqui, apesar dos momentos em que o termóestato entra no vermelho e a viatura tem mesmo que parar.

Sei que há por aí umas quantas almas que vão mantendo um olho por aqui para tentar perceber se o carro está em cima de cepos ou se ainda dá umas voltinhas ao bairro, a elas digo: obrigada e mantenham-se por aí, não vá ser preciso chamar o reboque!

segunda-feira, 12 de junho de 2017

E quando o dia 10 era só um feriado e eu não tinha nada para fazer?!...





Isto de ter crianças a fazer anos é uma pressão do caraças! Ele é a festa que precisa de um tema, é arranjar um/a animador/a que não seja creepy e que saiba fazer pinturas faciais e bichinhos com balões, é arranjar o espaço, é arranjar comes que sejam sem lactose e sem glúten e sem açúcar (e sem piada) para serem ultrasaudáveis para as pequenas crias de humanos, paciência para controlar crianças a correr durante duas ou três horas e ainda ter o talento para fazermos tudo de origem para que as crias se sintam amadas e não precisem de psicólogo precocemente.

Eu cá dei o meu melhor: bolinho para a escola na sexta (dia de anos) e festa no sábado. Entre uma coisa e outra foi fazer as compras dos "comes" e das "decorações" para, no final, o resultado ser uma coisa tipo aqueles "memes" dos "fails" do pintrest. Em hashtags a festa seria um #nailedit #sqn... 

Por partes:
- O Tema: 
Princesas e, a pedido da criança, seria importante ter a presença da Branca de Neve e, já agora, do príncipe. Aproveitei logo a dica para lhe dizer que a Branca de Neve até era capaz de ir à festa mas que ela não dependia do príncipe para fazer as suas escolhas e que por isso o mais provável era ir sozinha, ao estilo "mulher independente". Acho que ficou convencida. Lá arranjei uma animadora supimpa que não saiu do personagem um único segundo!

- A Decoração: 
Ora, a ideia era ter a coisa em tons de rosa, branco e azul turquesa, sendo que pela miúda era tudo em cor-de-rosa. Na realidade tivemos direito a rosa, azul turquesa, verde, laranja, vermelho, azul claro e azul escuro. A porra das lojas não se organizam para ter as colecções consistentes no que respeita ao esquema de cores e vai daí a malta improvisa e no fim fica assim um bocado gay parade!

- Os Comes:
Fiz metade e comprei metade. Comprei miniaturas de coisinhas boas e dois bolos pequeninos e caseiros (um de beterraba outro de côco e ananás) e pipocas. O resto fiz: salada de frutas, guacamole, húmus, sandes de pães de leite, e o próprio do bolo de anos que ficou uma espécie pesadelo da pastelaria mas não sabia mal. Era um "sponge cake" de lima com um recheio de creme de lima (não sei como chamar ao creme que lhe fiz para pôr no meio). A decoração foi feita para distrair de tanto remendo na pasta de açúcar (que só estava lá para fazer género porque quando foi para servir tirámo-la).

- O Espaço:
A zona de merendas do Parque dos Poetas onde havia mais 85 festas de anos, pertinho da zona do inferno (também conhecida por escorregas).

Aconteceu a festa, não perdi nenhum miúdo e nenhum miúdo foi devolvido com peças a menos. Aconteceu também uma epifania: para o ano quero um aniversário "chave na mão"! É que a minha veia Martha Stewart está para lá de anémica, mesmo com a ajuda da minha mãe (sem ela ainda estava a fazer pãezinhos de leite a remendar o bolo de anos). Para além do mais, a paciência está canalizada para a dramática da minha filha que não consegue gerir uma reunião social sem chorar pelo menos quatro vezes. Apesar da dose gigantesca de cansaço, valeu a pena porque ao chegar a casa a Sardanisca lá me explicou que estava muito "enflismada" (acho que é entusiasmada e feliz) com a festa!

PS - Apesar das muitas horas de pé, das muitas corridas, dos muitos stresses e das 38 semanas, a criança ainda não nasceu.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Da representação e do dom da invisibilidade


Nos dias que correm não me faltam ideias de negócio e de empreendedorismo que partilho com o mundo a custo zero. A sugestão de hoje é uma borla para os directores de castings para novelas. Façam atenção:

São precisas caras novas nas novelas?! Então, nada como começar a procurar actores em potência em sítios improváveis! Esqueçam as "calls" para as novelas, as agências de actores e os shows de talento e ponham os olhinhos nos supermercados. Passo a explicar: depois de meses de recolha e tratamento de dados descobri qual o contexto ideal para identificar o cidadão comum que tem dentro de si um actor de excepção, e cheguei à conclusão que vivemos num país de artistas. 

Imaginem o cenário: uma caixa de supermercado. No início do tapete, em fundo vermelho e letras brancas, a seguinte mensagem "atendimento prioritário". Uma fila de pessoas (aka potenciais personagens de novela) com compras para pagar. Ambiente: aquele "ram-ram" do costume, de "pis" sob uma luz florescente que faz lembrar o talho. A antítese do viver. O sinónimo do marasmo e da rotina macilenta do quotidiano. Nisto, entra a grávida com barriga até à boca e, numa régie escondida grita-se "acção" e começa-se a avaliar as expressões faciais e corporais dos potenciais artistas. Desde logo, aquele que tem mais material para representar é o último da fila. Em fracção de segundos tem que conseguir disfarçar e conter uma série de reacções: virar para perceber que chegou alguém, desviar o olhar do elemento perturbador da normalidade (a barriga), contrariar as normas sociais que fazem de uma grávida um elemento com um estatuto social diferente, ignorar as letras em fundo vermelho, voltar-se para a frente e manter a postura corporal como se nada se tivesse passado. Cena 1, take 1, fechados. Os restantes elementos da fila, assumem um comportamento semelhante sendo mais complicado inferir se se aperceberam ou não da condição particular da nova freguesa. Eu, se estivesse a coordenar o casting, deixava estes para segundos testes. De repente, a senhora que está quase a acabar de pagar as compras, enquanto controla um miúdo de três anos diz alto e bom som "Olhe que tem prioridade! Não quer vir aqui para a frente?". 
Entra nova voz de acção: cena 2, take 1. Aqui deve observar-se com atenção as simulações de espanto e a expressão corporal de solicitude. O que deverá ser analisado é o frágil equilíbrio entre o "under" e o "over acting". É necessária alguma perícia para se manobrar nesta estreita fronteira e isto só mesmo um talento inato consegue fazer. Normalmente, a representação é acompanhada com uma espécie de diálogo retórico "Ah! Nem tinha dado conta! Passe, passe! Se tivesse reparado já tinha dado a vez!".

Se isto não é material digno de uma entrada directa para o "prime time da novela", não sei o que será!

Da minha parte, só tenho pena de fazer, vezes de mais, parte deste cenário, para mal dos meus rins, que aleijam sempre que tenho de estar parada e de pé!