sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ponto da situação






Farei 40 semanas de gestação amanhã. Sinais da garota querer sair? Nenhum! Juro que achei que pelas 37 estaria cá fora tal foi a animação da minha vida nestes últimos tempos: corri muito atrás da mais velha; mudei de casa e fui eu, com o "partener", que fizemos as mudanças e as limpezas na casa antiga e na casa nova (com a ajuda da mãe e da sogra num dos dias); mantive-me no ginásio até aos 7 meses e meio; fiz a festinha da Sardanisca com tudo o que isso implica (compras, cozinhar, montar o estaminé e arrumar tudo a seguir); estive a trabalhar até às 39 semanas e dois dias num edifício que tem três andares (e um elevador do tempo da velha senhora e tão lento quanto a própria no qual nunca andei) o que implicou subir e descer muita escada por dia e também subidas e descidas variadas à Cova da Moura e à Quinta do Mocho que são zonas inclinadas para caramba, mais as sessões de defesas de 8 horas; as lides domésticas (cozinhar, limpar, tratar da roupa), ainda que partilhadas com o meu Homem continuaram a ser asseguradas por mim e ainda fui à praia e tomei banhos de mar com a Picatxu com direito a apanhar ondas, fazer castelos na areia, carregar sacos de praia, levar a miúda ao colo e o camandro. No meio disto tudo, tive direito a contrações mas nada de outro mundo. Quando cheguei a Coimbra, no início da semana, achei que me iam dizer na maternidade que já podia ficar que a coisa se ia dar a qualquer momento. Não! Ouvi um "uuuiiii! isto ainda está muito atrasado!! venha cá daqui a uns dias". Voltei para ouvir outro "uuuiii! está um bocadinho mais avançado mas ainda há aqui muito trabalho pela frente! se às 41 semanas ainda não tiver nascido vamos ter de induzir". Se as caminhadas e as brincadeiras com a garota continuaram a fazer parte dos meus dias, juntei à dose diária de actividade a subida e descida de escadas. Quantas? ora bem, 280 degraus a subir (não conto as descidas) de manhã e à tarde até à primeira visita à maternidade, a que passei a somar visitas diárias às escadas monumentais (125x2 degraus a subir) depois da segunda visita à maternidade. Resultado? Dói-me a barriga... das pernas. Perante isto, estou convencida que a mai nova nasce lá para o Natal. Dicas anyone?

quarta-feira, 21 de junho de 2017

11 dicas para arrasar no instagram


Tenho que avisar que o post deve ser lido no tom irónico e sarcástico com que foi escrito... Se eu soubesse como dominar as redes sociais não tinha cerca de três leitores! Vamos lá, que isto é fruto de muitos meses de recolha de dados.

1. Comprar um flamingo insuflável e espetá-lo no instagram à força toda: nos "live videos", nos "instastories" e nas fotos em modo boomerang e sem ser, garantindo que ttttooooooddddddaaaaaa a gente sabe que se adquiriu um flamingo insuflável. (Porquê?!... se estão a pensar responder a essa pergunta a popularidade nas redes sociais não deve ser a vossa cena... deixem de ler este post aqui);

2. Fazer um instastories com a indicação da hora, local e temperatura (de preferência num lugar em que se possa estar dentro de água com o flamingo). Desde do saudoso Anthímio de Azevedo que a meteorologia não é mesma coisa. Há que batalhar para lhe devolver a dignidade;

3. Fazer um unboxing de cenas. Nada como ver um indivíduo maneta a tentar abrir uma caixa. Faz o dia de qualquer pessoa muito mais interessante;

4. Selfies individuais ou colectivas com os acrescentos das orelhas e narizes dos animaizinhos, coroas da frozen, óculos e tudo o que se tem direito. Aceito sugestões de punch lines para esta, porque não me sai nada;

5. Qualquer coisa em boomerang... mas, em podendo, rodopiar uma saia ou um vestido. Só pela ilusão de estarmos a desafiar a gravidade por algumas fracções de segundo. Há um Einstein dentro de cada um de nós... salvo seja;

6. Festivais de Verão: filmar de modo a que o mundo veja o que nós vimos, isto é, um artista pelo ecrã de um telemóvel (e não ao vivo);

(Não descurar os clássicos:)

7. Pés / Pernas. Foi por aqui que tudo começou e ainda não passou de moda. Mostrar ao mundo que somos bípedes continua a ser inovador;

8. Comida. Se houve tema que cresceu foi este. Já não é só a comida do restaurante do não sei quantos do Bairro/Esquina/Avenida/Marina (riscar o que não interessa), agora é o se come antes e depois do treino, a nova tendência vegan/vegetariana/paleo, o gelado de três andares... You name it! Fundamental é que se perceba que nos alimentamos. Atenção aos brunchs... estão a perder a popularidade;

9. Ginásio (lá está... de mãos dadas com a comida) não pode falhar com o respectivo relato, se não não vale. Temos que saber a hora do início do treino, os segmentos trabalhados, o número de repetições e, fundamental, o número de calorias gasto. Caso contrário mas valia terem estado a enfardar bolos;

10. Outfit of the day: no provador da Zara, contra o portão do prédio, a atravessar a estrada, a fazer pose descarada ou como se não soubéssemos que nos estão a a fotografar... tudo vale. Dica: não tirar a etiqueta para dar para devolver à loja;

11. Cenas aleatórias colocadas em cima de uma secretária mas tudo muito bem arrumadinho. Esta tendência já viu dias mais prósperos... mas eu continuo a acreditar que vai voltar em força, afinal, de que outra forma podemos combinar um teclado de computador, com uns brincos, um livro, uma garrafa de sumo, um lápis e uma moldura?! Há coisas que não podem cair no esquecimento!;

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Para já, um bocadinho de silêncio


Tinha um post com piada (digo eu!) agendado para hoje mas não estava confortável em deixá-lo aqui no meio de tanta coisa sem graça a acontecer. Por agora ficamos assim, a desmoer a ideia de que acontece só aos outros porque temos tido a sorte de estar no lado certo das tragédias*. Aquele em que podemos dizer ao mundo, como se o assunto fosse sobre nós, que temos muita pena e o coração muito apertado, em que nos preocupamos em chafurdar na dor dos outros na procura de culpados (como se valesse de muito) e que apontamos soluções que no mínimo, vêm tarde de mais. Daqui por uns dias já vai fazer mais sentido (so)rir e nessa altura deixo o post  mesmo giro (no pressure) que estava preparado para hoje.

Como ajudar sem ter muito trabalho, sem atrapalhar e sem ter de garantir há espaço para tudo, aqui.

* Já agora, quão seguros nos sentimos se pensarmos que esta trapalhada toda aconteceu porque um raio, num dos dias mais quentes e secos do ano, atingiu uma árvore, que essa árvore pegou fogo às outras e que o vento levou esse fogo para o resto do espaço e chegou a aldeias que de tão anónimas nem deviam vir no mapa. Haverá maior conjugação de improbabilidades?

sexta-feira, 16 de junho de 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Das analogias improváveis e daqueles posts longos com'ó catano


O meu primeiro carro foi um Fiat Cinquecento branco de 1994 (acho eu). Não tinha auto-rádio (o carro tinha sido da minha mãe e ela tinha medo que lho roubassem se tivesse auto-rádio... era capaz de ter alguma razão) mas tinha um discman a pilhas com colunas em vez de headphones. Acompanhou-me em horas incontáveis de casa para a faculdade, da faculdade para o trabalho, idas a casa da minha mãe, treinos de pólo-aquático tardios, latadas e queimas das fitas, viagens de férias, inícios de namoricos, meios de namoricos e fins de namoricos, fez mudanças de quarto de vários colegas e fez de autocarro todos os dias. Podia dizer que nunca me deixou mal mas estaria a ser mentirosa. Na verdade era preciso conhecer bem a peça para lhe pôr as mãozinhas: não aguentava o pára-arranca de um dia de trânsito e ficava logo com o termóestato no vermelho e não andava para mais lado nenhum; tinha de ter sempre um saquinho de fusíveis no porta-luvas para os dias de chuva em que os desgraçados se fundiam à velocidade da luz; os garrafões de óleo e água ficavam na mala para quando a temperatura subisse sem avisar. Apesar do tanto que ajudou a minha vida, não lhe consigo perdoar aquele verão em que fui, com mais duas babes, fazer uma viagem pela costa de prata, que, no meu caso, se chamava "viagem de dor de corno" (tinha acabado de ficar sem o meu primeiro namorado a sério e queria esfregar na cara dele e da nova namorada que estava super feliz e independente) quando fiquei com o carro a deitar fumo em plena A1 a 30 km de casa e as férias foram substituídas por uma cabeça de motor (e não pude esfregar nada na cara de ninguém...).


Nesta analogia, que tarda em chegar, eu sou o Cinquecento e o blog sou eu durante os tempos de faculdade. Este espacinho faz hoje 9 anos (9 anos caramba!!) e como é lógico já passou por muito: um doutoramento, quatro ou cinco mudanças de casa, enganos amorosos que terminaram com um tiro certeiro num tipo às direitas, mudanças de cidades, mudanças de trabalho, desemprego, filha n.º1 e filha n.º2. Mudanças de personalidades que foram desde a tipa que fazia bugigangas (ver, com um compensan ao lado, os primeiros posts), à que achava que um dia ia ser fashionista, à que tinha tantas opiniões que achava que podia dispensar algumas ao mundo, à cinéfila intelectual, à melómana vintage, passando pela "Martha Stwart" (versão pobrezinha que não desvia fundos), e pela guia de viagens daqueles destinos que já todos conhecem, já para não falar da fit-momma-runners-wh-cenas entre outras mil coisas que prefiro não elencar (para evitar vergonhas alheias). O blog manteve-se aqui, firme e hirto, disponível para as necessidades, e eu fui o carro em sobreaquecimento que volta-e-meia ficava parado; fui o veículo que deixou o blog na mão quando ele mais precisava para crescer; fui o discman que ficou sem pilhas quando o que era mesmo preciso era um sonzinho ambiente (não sei bem o que é que isto quer dizer mas saiu e vai ficar).

Ao longo destes 9 anos, já houve promessas de que isto ia crescer, já houve contactos para parcerias (a mais memorável de todas que, tal como as outras, nunca viu a luz do sol, foi a de um aspirador que vinha mesmo a calhar mas por inépcia minha ficou pelo caminho), já houve pedidos de divulgação de coisas e todo um conjunto de cenas com as quais não soube lidar porque, afinal, quem anda de Cinquecento quer é estar na descontra porque já chega o stress associado a todos os imprevistos que podem acontecer...


Confesso que sinto muito a falta de vir aqui com mais tempo, escrever o que me apetece, ser a tipa que se arranjava para ficar bonitinha, a que ia ao cinema, a que ouvia música nova, a que tinha muitas opiniões... mas depois a vida mete-se no caminho e acho que ninguém precisa de saber que há uns dias saí de casa com dois ganchos da Minnie espetados no meio da testa porque estive a brincar aos penteados com a Sardanisca e depois esqueci-me de os tirar. Que tudo quanto é comida e pasta de dentes aterra na barriga onde está a mais nova e sempre que olho para baixo tenho uma nódoa daquelas à la "trailler park". Ou que, estive dois meses sem arranjar as unhas porque com as mudanças e as limpezas associadas às mudanças não há verniz que aguente dois minutos. Que tenho os calcanhares a fazer inveja às lixas das rebarbadoras. Que divido o meu tempo entre o trabalho (que é muito) e a manutenção da casa e das nossas vidas enquanto tenho de me deslocar com uma bola de basquete de alguns cinco quilos, com dores nas articulações e tomar ferro, iodo e magnésio para ver se o corpo não entra em decomposição. O mais estranho disto tudo é que não me estou a queixar, apesar poder parecer que sim, e até estou feliz com a situação! Acho que tenho tudo e quilos de sorte por conseguir ter tudo (quer dizer, mulher-a-dias uma vez por semana era uma coisa que me podia deixar ainda mais feliz), mas acho que para o resto do mundo esta é uma realidade um bocadinho deprimente e sempre muito do mesmo... Ainda assim, não desisto de manter este cantinho aqui para o que der e vier. Gostava muito de lhe fazer um "pimp my ride" e pô-lo a parecer como uma coisa a sério e cheia de glamour mas sei que isso não vai acontecer num futuro próximo. Seja como for, vamos continuar a fazer um esforço para nos mantermos por aqui, apesar dos momentos em que o termóestato entra no vermelho e a viatura tem mesmo que parar.

Sei que há por aí umas quantas almas que vão mantendo um olho por aqui para tentar perceber se o carro está em cima de cepos ou se ainda dá umas voltinhas ao bairro, a elas digo: obrigada e mantenham-se por aí, não vá ser preciso chamar o reboque!

segunda-feira, 12 de junho de 2017

E quando o dia 10 era só um feriado e eu não tinha nada para fazer?!...





Isto de ter crianças a fazer anos é uma pressão do caraças! Ele é a festa que precisa de um tema, é arranjar um/a animador/a que não seja creepy e que saiba fazer pinturas faciais e bichinhos com balões, é arranjar o espaço, é arranjar comes que sejam sem lactose e sem glúten e sem açúcar (e sem piada) para serem ultrasaudáveis para as pequenas crias de humanos, paciência para controlar crianças a correr durante duas ou três horas e ainda ter o talento para fazermos tudo de origem para que as crias se sintam amadas e não precisem de psicólogo precocemente.

Eu cá dei o meu melhor: bolinho para a escola na sexta (dia de anos) e festa no sábado. Entre uma coisa e outra foi fazer as compras dos "comes" e das "decorações" para, no final, o resultado ser uma coisa tipo aqueles "memes" dos "fails" do pintrest. Em hashtags a festa seria um #nailedit #sqn... 

Por partes:
- O Tema: 
Princesas e, a pedido da criança, seria importante ter a presença da Branca de Neve e, já agora, do príncipe. Aproveitei logo a dica para lhe dizer que a Branca de Neve até era capaz de ir à festa mas que ela não dependia do príncipe para fazer as suas escolhas e que por isso o mais provável era ir sozinha, ao estilo "mulher independente". Acho que ficou convencida. Lá arranjei uma animadora supimpa que não saiu do personagem um único segundo!

- A Decoração: 
Ora, a ideia era ter a coisa em tons de rosa, branco e azul turquesa, sendo que pela miúda era tudo em cor-de-rosa. Na realidade tivemos direito a rosa, azul turquesa, verde, laranja, vermelho, azul claro e azul escuro. A porra das lojas não se organizam para ter as colecções consistentes no que respeita ao esquema de cores e vai daí a malta improvisa e no fim fica assim um bocado gay parade!

- Os Comes:
Fiz metade e comprei metade. Comprei miniaturas de coisinhas boas e dois bolos pequeninos e caseiros (um de beterraba outro de côco e ananás) e pipocas. O resto fiz: salada de frutas, guacamole, húmus, sandes de pães de leite, e o próprio do bolo de anos que ficou uma espécie pesadelo da pastelaria mas não sabia mal. Era um "sponge cake" de lima com um recheio de creme de lima (não sei como chamar ao creme que lhe fiz para pôr no meio). A decoração foi feita para distrair de tanto remendo na pasta de açúcar (que só estava lá para fazer género porque quando foi para servir tirámo-la).

- O Espaço:
A zona de merendas do Parque dos Poetas onde havia mais 85 festas de anos, pertinho da zona do inferno (também conhecida por escorregas).

Aconteceu a festa, não perdi nenhum miúdo e nenhum miúdo foi devolvido com peças a menos. Aconteceu também uma epifania: para o ano quero um aniversário "chave na mão"! É que a minha veia Martha Stewart está para lá de anémica, mesmo com a ajuda da minha mãe (sem ela ainda estava a fazer pãezinhos de leite a remendar o bolo de anos). Para além do mais, a paciência está canalizada para a dramática da minha filha que não consegue gerir uma reunião social sem chorar pelo menos quatro vezes. Apesar da dose gigantesca de cansaço, valeu a pena porque ao chegar a casa a Sardanisca lá me explicou que estava muito "enflismada" (acho que é entusiasmada e feliz) com a festa!

PS - Apesar das muitas horas de pé, das muitas corridas, dos muitos stresses e das 38 semanas, a criança ainda não nasceu.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Da representação e do dom da invisibilidade


Nos dias que correm não me faltam ideias de negócio e de empreendedorismo que partilho com o mundo a custo zero. A sugestão de hoje é uma borla para os directores de castings para novelas. Façam atenção:

São precisas caras novas nas novelas?! Então, nada como começar a procurar actores em potência em sítios improváveis! Esqueçam as "calls" para as novelas, as agências de actores e os shows de talento e ponham os olhinhos nos supermercados. Passo a explicar: depois de meses de recolha e tratamento de dados descobri qual o contexto ideal para identificar o cidadão comum que tem dentro de si um actor de excepção, e cheguei à conclusão que vivemos num país de artistas. 

Imaginem o cenário: uma caixa de supermercado. No início do tapete, em fundo vermelho e letras brancas, a seguinte mensagem "atendimento prioritário". Uma fila de pessoas (aka potenciais personagens de novela) com compras para pagar. Ambiente: aquele "ram-ram" do costume, de "pis" sob uma luz florescente que faz lembrar o talho. A antítese do viver. O sinónimo do marasmo e da rotina macilenta do quotidiano. Nisto, entra a grávida com barriga até à boca e, numa régie escondida grita-se "acção" e começa-se a avaliar as expressões faciais e corporais dos potenciais artistas. Desde logo, aquele que tem mais material para representar é o último da fila. Em fracção de segundos tem que conseguir disfarçar e conter uma série de reacções: virar para perceber que chegou alguém, desviar o olhar do elemento perturbador da normalidade (a barriga), contrariar as normas sociais que fazem de uma grávida um elemento com um estatuto social diferente, ignorar as letras em fundo vermelho, voltar-se para a frente e manter a postura corporal como se nada se tivesse passado. Cena 1, take 1, fechados. Os restantes elementos da fila, assumem um comportamento semelhante sendo mais complicado inferir se se aperceberam ou não da condição particular da nova freguesa. Eu, se estivesse a coordenar o casting, deixava estes para segundos testes. De repente, a senhora que está quase a acabar de pagar as compras, enquanto controla um miúdo de três anos diz alto e bom som "Olhe que tem prioridade! Não quer vir aqui para a frente?". 
Entra nova voz de acção: cena 2, take 1. Aqui deve observar-se com atenção as simulações de espanto e a expressão corporal de solicitude. O que deverá ser analisado é o frágil equilíbrio entre o "under" e o "over acting". É necessária alguma perícia para se manobrar nesta estreita fronteira e isto só mesmo um talento inato consegue fazer. Normalmente, a representação é acompanhada com uma espécie de diálogo retórico "Ah! Nem tinha dado conta! Passe, passe! Se tivesse reparado já tinha dado a vez!".

Se isto não é material digno de uma entrada directa para o "prime time da novela", não sei o que será!

Da minha parte, só tenho pena de fazer, vezes de mais, parte deste cenário, para mal dos meus rins, que aleijam sempre que tenho de estar parada e de pé!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Em apneia







Num destes dias, já com nove meses de garota no bucho, fui levar a Sardanisca à natação. Não sei se sou só eu, mas estas aulas são para mim um misto de orgulho e de bungee jumping, tal é a emoção. A instrutora é uma querida e super-competente, as piscinas (do Jamor) não podiam ser melhores e ela diverte-se à brava porque, basicamente, o que fazem é brincar na água durante 50 minutos. Ainda assim, esta brincadeira implica algumas aventuras: mergulhos, "nadar" debaixo de água... e acho que é isto.

Num dos últimos treinos, os garotos tinham de descer por um escorrega para dentro de água e a miúda ficou histérica porque estava a juntar as duas coisas que mais gostava. A descida fazia-se de mão dada com a instrutora e depois, como já sabem desde a primeira aula, ficam agarrados à berma da piscina à espera de novas instruções. Depois da terceira volta, a minha cachopa, soube depois, disse à instrutora que queria descer mais uma vez. A resposta foi "sim, vais descer mais uma vez". Não sei o que se passou na cabeça da minha filha que, sem saber nadar ainda, se pôs a caminho! Largou a berma da piscina e pôs-se a "andar" a caminho do escorrega. Sem qualquer tipo de ajuda que ainda usam (esponjas, alteres e peixinhos). É claro que dois metros depois estava aflita e a instrutora, que estava a fazer descer outros meninos pelo escorrega, não se apercebeu logo. Eu estava nas bancadas. A muitos metros de distância em linha recta e em altura. Quando percebi que a miúda estava atrapalhada fiquei sem pio! Só conseguia bater no gradeamento das bancadas com o caderno que tinha levado para trabalhar. Finalmente a instrutora apercebeu-se e foi buscá-la. Contra todas as previsões, a Sardanisca não chorou, não panicou, não nada! Só quis voltar a descer do escorrega. Em compensação, eu fiquei a achar que ia parir a criança ali mesmo. Entre tremer por todos os lados, suar em bica, contrações e hiperventilação, deu para tudo (mas em discreto que não sou menina para querer o povo todo à minha volta)! Lá me consegui acalmar, com um dos pais dos miúdos do grupo a dizer, "fique calma porque a acontecer a algum dos pequenos que fosse à sua menina que é a mais desenrascada!" Levei a coisa como um elogio até porque o senhor estava mais aflito que eu com a possibilidade de ter de fazer o parto!

Quando a fui buscar falei do assunto com a instrutora, que estava ainda abananada com o que tinha acontecido, mas as duas sem darmos parte de fraca para a Sardanolas não perceber. À noite, feita parva, ainda pensava no assunto... e como vi aquela série "The affair" fui três ou quarto vezes confirmar que a garota estava de facto a dormir.

Estas coisas fazem parte e ainda bem que acontecem sem mais consequências para além do susto que deixam nos adultos e eventualmente nas crianças, mas que não havia necessidade, não havia!