quarta-feira, 7 de junho de 2017

Da representação e do dom da invisibilidade


Nos dias que correm não me faltam ideias de negócio e de empreendedorismo que partilho com o mundo a custo zero. A sugestão de hoje é uma borla para os directores de castings para novelas. Façam atenção:

São precisas caras novas nas novelas?! Então, nada como começar a procurar actores em potência em sítios improváveis! Esqueçam as "calls" para as novelas, as agências de actores e os shows de talento e ponham os olhinhos nos supermercados. Passo a explicar: depois de meses de recolha e tratamento de dados descobri qual o contexto ideal para identificar o cidadão comum que tem dentro de si um actor de excepção, e cheguei à conclusão que vivemos num país de artistas. 

Imaginem o cenário: uma caixa de supermercado. No início do tapete, em fundo vermelho e letras brancas, a seguinte mensagem "atendimento prioritário". Uma fila de pessoas (aka potenciais personagens de novela) com compras para pagar. Ambiente: aquele "ram-ram" do costume, de "pis" sob uma luz florescente que faz lembrar o talho. A antítese do viver. O sinónimo do marasmo e da rotina macilenta do quotidiano. Nisto, entra a grávida com barriga até à boca e, numa régie escondida grita-se "acção" e começa-se a avaliar as expressões faciais e corporais dos potenciais artistas. Desde logo, aquele que tem mais material para representar é o último da fila. Em fracção de segundos tem que conseguir disfarçar e conter uma série de reacções: virar para perceber que chegou alguém, desviar o olhar do elemento perturbador da normalidade (a barriga), contrariar as normas sociais que fazem de uma grávida um elemento com um estatuto social diferente, ignorar as letras em fundo vermelho, voltar-se para a frente e manter a postura corporal como se nada se tivesse passado. Cena 1, take 1, fechados. Os restantes elementos da fila, assumem um comportamento semelhante sendo mais complicado inferir se se aperceberam ou não da condição particular da nova freguesa. Eu, se estivesse a coordenar o casting, deixava estes para segundos testes. De repente, a senhora que está quase a acabar de pagar as compras, enquanto controla um miúdo de três anos diz alto e bom som "Olhe que tem prioridade! Não quer vir aqui para a frente?". 
Entra nova voz de acção: cena 2, take 1. Aqui deve observar-se com atenção as simulações de espanto e a expressão corporal de solicitude. O que deverá ser analisado é o frágil equilíbrio entre o "under" e o "over acting". É necessária alguma perícia para se manobrar nesta estreita fronteira e isto só mesmo um talento inato consegue fazer. Normalmente, a representação é acompanhada com uma espécie de diálogo retórico "Ah! Nem tinha dado conta! Passe, passe! Se tivesse reparado já tinha dado a vez!".

Se isto não é material digno de uma entrada directa para o "prime time da novela", não sei o que será!

Da minha parte, só tenho pena de fazer, vezes de mais, parte deste cenário, para mal dos meus rins, que aleijam sempre que tenho de estar parada e de pé!

4 comentários:

  1. ahahahahahaha amei!!! tb válido para transportes públicos

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  2. Mas digo-te que são mesmo os locais perfeitos para encontrar bons actores!!

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  3. As pessoas são tão otárias, que enjoa. Fazem-se de parvas... só dá vontade de abrir caminho ao chapadão :D

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